Skip to content

Companhia

television program
tele vision program
tele visionprogram
action

Soneto de Individualidade

Meu sofrimento é maior que o teu
Minha dor dói mais que a sua.
Meu drama conta verdade crua
Meu pranto comove mais que o seu.

E esse meu lamento que enche a rua
Chamando tua atenção pro problema meu
Ignorando eventual clamor do coração teu
Despeço-me de incomodados amigos e me volto pra Lua.

Pois se vou de Pierrot, ela gosta é de Harlequim
E se venho com frutas, ela deseja é glacê
Ora, talvez a vida seja a vida seja de fato assim

E do acaso estejamos mesmo à mercê
Por isso que necessito que acredite em mim
Assim como eu confio em você

Contos sobre a bohemia urbana. #1

– Vai se foder, cara. Você chega aqui, fala o que bem entende e depois implora por perdão e essas porras? Vai tomar no meio do seu cu! Como caralhos você ousa brincar de me xingar e só para pra tomar essas atitudes auto destrutivas que nós dois sabemos que não vão te levar a lugar algum?! Você só serve pra matar as pessoas que te amam de preocupação. E a mim também.

E desligou o telefone. Ela parecia meio puta da vida. Também pudera! Todas as palavras mais baixas que eu consegui encontrar no meu vocabulário foram disparadas diretamente contra o orgulho dela. Se algum dia ela gostou, de fato, de mim, esse dia já se foi. Não há dúvidas; eu peguei a nossa relação e joguei fora como se faz com papel higiênico usado. Mesmo a amizade dela, que outrora fora tão importante pra mim, foi descartada como fazem com restos de comida de restaurante chique: que ainda servem pra comer, mas são friamente descartadas mesmo com um monte de gente com fome por aí.

Essa ingratidão estúpida foi o que marcou todos os meus relacionamentos anteriores. Eu sempre tive o condão de pensar demais. De pensar merda demais. Talvez seja falta do que fazer, não sei. Tem gente que quando tá sozinho ouve música de merda, toca punheta, faz arte, faz trabalho voluntário, trabalha… eu não, eu faço merda. Eu gosto é de merda. Sou um paradoxo, eu quero ser feliz, mas eu passo o tempo todo pensando em coisas que me deixam triste. Eu idealizo um monte de coisas legais na minha cabeça, mas a real é que eu não realizo porra nenhuma. Decido com toda a certeza do mundo que ser presidente das galáxias não é o que eu quero, mas eu não sou capaz nem de encontrar emprego numa rede de fast food. Ao passo que eu tenho visões que me dizem que eu posso ser imparável se houver algo que me motive e me deixe determinado, eventualmente eu acabo me deprimindo ao perceber que não fui capaz de vencer na primeira tentativa.

No caso dela, foi ciúmes. Não foi o sexo de quinta. Não foi o beijo que não encaixou ou os gostos insuportavelmente distintos, não foi nada disso. Ela até toleraria ficar comigo me aceitando com todos os meus defeitos, que não são poucos. O que ela é incapaz de aceitar é que alguém duvide da palavra dela.

Adivinha o que eu fiz com a palavra dela? Que tantas vezes haviam me confortado?

Pois é, joguei no chão e pisei em cima.

Provavelmente eu joguei no chão pra pisar e depois pegar e consertar e me gabar de que fui eu quem consertou. De que ela precisava de mim. De que eu era capaz de limpar toda a merda que eu mesmo havia jogado no ventilador.

Pois ela não precisava de merda nenhuma na vida dela.

E eu precisava fazer desaparecer essa sobriedade que me deixava louco por fazer eu ter de encarar essa merda de realidade que era minha vidinha.

Depois de fazer um esforço homérico, levantei-me do sofá, coloquei as primeiras calças que vi, vesti minhas botas, coloquei uma camiseta que não estava fedendo e joguei o sobretudo por cima de tudo. Tudo preto, porque eu estava saindo à noite e eu queria ser confundido com o breu que inundava as ruas e o meu coração. Não havia porquê ser visto. Eu não queria ser visto por ninguém, porque eu já havia decidido que eu era dela e nada iria mudar isso. Mesmo assim saí em busca de ação, mesmo sabendo que eu iria acabar a noite afundado em cigarros, álcool e sabe-se lá o que mais eu encontrasse, caso tivesse sorte. Mundo hipócrita do caralho, por quê as pessoas não podem chapar suas cabeças como e quando bem entendessem? Puta merda, era um saco ser obrigado a pagar os malditos impostos e em troca ser tratado como um bebê por um Estado que não me representa.

Saí de casa. Não tranquei a porta porque considerei a impossibilidade de alguém entrar lá e me esperar. Me tranquilizava a ideia de ter alguém pra voltar. Enquanto esperava o elevador, escutei bem longe uma música tocando. Era paranoid, do black sabbath? Nem era… era eu quem estava ficando paranoico de vez. Chega o elevador. Abro as grades e as fecho atrás de mim. Era um daqueles elevadores da década de 20 que tinham aquela dupla de grades que você precisava abrir e fechar antes de seguir adiante com a sua vida. De repente, ouvi um barulho surdo de engrenagens decidindo não trabalhar mais e o elevador trava no décimo terceiro andar. Seriam elas protestando contra a minha decisão arbitrária de fazê-las funcionar? Era mais uma dessas catracas da vida, que só te libera quando você faz o que elas querem que você faça. Era só o que me faltava. Apertei de novo o botão do térreo. Nada. De novo. Mesma coisa. Pensei em gritar por ajuda, mas a última coisa que precisava era parecer mais idiota. Fui tomado por uma onda de raiva insana e questionei Deus. De novo. Aos poucos, as fibras das minhas pernas começaram a ceder e sentei-me no chão. Apoiei os cotovelos no chão e quis chorar. Senti as lágrimas subindo pros olhos, mas neguei-me a chorar quando não houvesse ninguém por perto. Era dramático demais pra me prestar a tal papel. Quem nesse mundo era capaz de chorar sóbrio?

Inevitavelmente, pensei naquilo que ultimamente eu passava o dia todo pensando; nela. Eu poderia estar falando com ela. Eu poderia estar com ela, destilando todo o amor que tão desesperadamente queria dar, mas que, por algum motivo, não era capaz de fazê-lo quando ela estava tão disposta a tal. Não consegui me segurar. Duas lágrimas desceram, uma de cada olho. Senti o rastro molhado formando-se nas minhas bochechas magras. Eu poderia tê-las secado, mas havia algo de belo nessa cena que não tive a audácia de interromper. Pensei no rosto dela e nas lágrimas que eu mesmo já a havia feito derramar. Agarrei meus cabelos sujos e despenteados e cerrei os dentes com força enquanto me perguntava até quando aquilo iria durar.

– Ei cara, tá tudo bem? – perguntou uma voz meio embriagada que parecia vir de um lugar tão distante que definitivamente não era o corredor que levava aos apartamentos daquele andar. – Levanta logo, a gente vai tirar você daí.

Olhei para o lado e vi três pessoas. Dois homens e uma mulher. O altruísta falante era careca e muito alto. Olhava-me com as sobrancelhas meio franzidas como se fosse a primeira vez que tivesse visto um homem com os olhos meio inchados. Ostentava tatuagens que cobriam ambos os braços e o pescoço. Um suspensório branco sustentava as calças jeans. O outro homem era loiro e parecia meio perdido olhando para o próprio reflexo no espelho do elevador. Tinha um corte recente no queixo e olhos semicerrados, como quem já está realmente muito louco. A mulher me olhava com vivo interesse por trás dos seus olhos azuis que ficavam embaixo daquelas sobrancelhas meio erguidas e ostentava um sorrisinho cínico, típico daquelas que já haviam feito mil homens chorar.

Levantei-me rapidamente e coloquei as mãos nas bochechas. As lágrimas haviam secado, mas meus olhos denunciavam meu pranto recente. Passei as mãos nos cabelos, olhei-os com desafio e não disse nada.

O loirinho com cara de maluco desapareceu e trinta segundos depois chegou com um de pé de cabra (onde raios ele havia encontrado um tão rapidamente?) de um metro e meio de comprimento e começou a arrombar a porta do elevador.

– Hey garotão, o que que você gosta de ouvir? – perguntou o cara dos suspensórios. Ele estava com uma cara muito séria pra uma pergunta tão casual. Por um momento, parei de pensar nela e tentei engrenar um raciocínio que pudesse me incluir na festa do cara. Qualquer coisa era melhor do que desmaiar sozinho na rua.

– Black Sabbath.

– Porra! Que susto! Achei que você era mais um dessa escória que gosta de música pop influenciada por gente de classe inferior. Vem cá, levanta.

A mão do cara era uma pedra e o braço dele era um guindaste. Me colocou de pé sem fazer o mínimo de esforço, me deu um tapinha na cara e disse:

– Meu nome é Franz. Essa é Catherine, mas a gente chama ela de Cath porque é mais fácil e mais sexy. – apontou pra moça, que deu outro sorrisinho desdenhoso enquanto ele dava uma lambida na bochecha dela – E esse é o Peter, – apontou para o cara com o pé de cabra – os pais dele são ingleses, mas ele é como nós.

Minha cabeça já estava meio baixa por culpa dos pesos que eu escolhi colocar em cima dela, mas mesmo assim eu reuni um pouco de fibra pra levantar meu braço direito e dar uma saudação rápida e generalizada aos dois que tinham acabado de ajudar a me tirar do poço.

Franz me puxou violentamente (e, de algum modo, carinhosamente) contra o ombro direito dele com seu braço direito e começou a falar que estavam todos muito loucos em uma festa que ele estava organizando no apartamento de outro cara, e que se eu quisesse chegar, era só melhorar o que ele classificou como “cara de bunda”.

Era Satã mandando eu ir pro calabouço. E eu fui.

Os primeiros 10 segundos após cruzar a soleira da porta do apartamento já foram suficientes pra eu perceber que aquela festa era composta apenas por degenerados. Na sala era possível ver 3 pessoas fazendo fila pra cheirar uma cocaína meio amarelada posta em várias carreiras em uma mesa enorme de mogno. Tinha um cara sentado no sofá esquentando o que parecia ser uma colher ao lado de uma menina alta com cara de topmodel que definitivamente não tinha mais de 16 anos ou 50 quilos. Dava pra ouvir os gemidos distintos de duas moças vindos de um banheiro que parecia muito perto. Outros dois caras tinham ligado o foda-se pra vida e dançavam pelados na varanda berrando alguma música do Iggy Pop.

Lust for life?

Com a mente enevoada, sentei-me exatamente no meio de um sofá de dois lugares, acendi um cigarro, apoiei os braços na espalda e fiquei vendo o espetáculo, na esperança de encontrar em mais algum dos presentes alguma característica mais degradante do que a minha. Aquilo me fazia surpreendentemente bem e eu estava disposto aproveitar mais a sorte.

Depois de uns dois minutos, chega uma moça. Ela se abaixa, dá um tapinha no meu ombro direito e se senta do meu lado. Daí ela acendeu um cigarro de filtro vermelho e olhou com um olhar distante e pouco impressionado para uma garrafada que uma moça gorda deu na nuca de um rapaz mais gordo ainda. Qual o nome dela mesmo? Catherine. Incrível como ficamos felizes ao lembrar de alguma coisa difícil, desde que seja prazerosa, e eu estava num estado que tudo passava despercebido. Nada floria. Talvez tivesse alguma relação com o fato de eu não ter exercitado meus músculos do pescoço. Não havia sentido ou propósito. Pelo menos até aquela mulher virar o pescoço na minha direção e enfiar aqueles olhos azuis dentro do meu cérebro. Mirei de volta e parei de piscar. Eu não conseguia perder sequer uma fração de segundo quando em questão se tinha o rosto daquela mulher. Quando estava quase começando a perder o controle sobre a minha mandíbula, fui chacoalhado por alguma coisa que me movia como se eu fosse uma mera marionete.

Não era Deus.

Era Franz.

– Cara, – pronunciou essa palavra longamente enquanto encontrava um meio de aconchegar-se no sofá e me empurrava pra mais perto da mocinha. Puxa vida, que perfume! – eu tenho que te ensinar uma coisa sobre a vida, – eu sabia que o cheiro de álcool da boca dele estava insuportável, mas tudo estava bem porque o meu bafo também estava asqueroso – não confie em ninguém que não tenha a pele branca igual a tua. São todos ratos. Lixos. Restos dos fungos da bosta do cavalo do bandido. Se a gente não puder confiar em quem tem o sangue igual ao nosso, então como vamos prover um mundo decente para os nossos filhos?

– Do que você tá falando, cara? – respondi com uma voz meio aguda e (sem querer) desafiadora, mas pra minha sorte ele imaginou que eu era um mero ignorante, bêbado demais e ele só queria uma desculpa pra falar mais e mais.

– Tou falando de pureza, meu irmão. Mein Kampf. A nossa luta se baseia no sonho de viver em um lugar em que só existam pessoas como nós.

– Mas sendo todos iguais, não encontraríamos outros motivos pra diferenças?

Ele me encarou do fundo dos seus olhos embriagados, baixou um tom na voz e disse:

– Cara, pelo menos a gente não vai precisar foder com as macacas. Vou pegar mais cerveja. – e saiu pra fazer qualquer outra coisa antes que eu pudesse comentar.

Não digeri muito bem o que ele disse nesse momento. As moças que ele chamava de “macacas” fora, por algum motivo, as moças com os rabos mais gostosos que eu tive a sorte de ter. O cara parecia meio racista e, olhando bem, não tinha ninguém que não fosse muito branco naquela festa. Uma hora e meia depois, no mesmo lugar e no mesmo sofá – depois de várias idas e vindas até a cozinha, nas quais presenciei cenas necessariamente obscenas, mas sem importância -, eu já estava sentindo os efeitos colaterais de álcool em excesso, ou pelo menos estava até ouvir um grito agudo vindo da varanda do apartamento.

– Para com isso, sua puta! Se você se joga daqui todo mundo vai rodar! Você tá pensando o que? Que é só se jogar e se esquecer do resto? Você vai é estar morta, nós não! – esse cara, que tinha braços de boxeador profissional e olhos muito chapados, segurava uma menina loira muito pequena e magra e que aparentemente tinha manchas de sangue nos braços muito brancos.

– Vai se foder, seu filho da puta! Me solta! Há um monstro crescendo dentro de mim e ele vai matar a todos os impuros!

E continuou esbravejando e se contorcendo, até que o cara forte resmungou um palavrão, puxou-a, jogou-a no chão da varanda e mandou ela fazer o que quiser com a vida de merda dela.

Depois de cair no chão, ali permaneceu por mais uns segundos tremendo levemente. Depois disso, levantou-se, encarou a nós todos e deu um sorrisinho. E a vadia se jogou. Puta que me pariu, ela se jogou mesmo. Não, espera… ela saltou! Ela colocara o pé esquerdo no apoio da varanda e saltara pra morte como uma atleta. Puta que me pariu, ela saltou! Eu estava suficientemente perto da varanda pra poder me empoleirar no parapeito e ver o corpo dela caindo e berrando algo demoníaco que de longe lembrava uma risada. E caiu pelo que parecia uma eternidade, até que todos ouvimos um baque que mais parecia com uma bota gigante pisando com força num monte de carne moída. Ninguém falou nada. Houve silêncio, exceto pela música, que ainda tocava no more tears a todo volume. De repente até a música cessou.

Olho pro lado e vejo olhares chocados. Ninguém se atreve a falar nada. Havia algo de belo e selvagem na coragem daquela moça que nenhum de nós conseguiu compreender.

Atordoado, saí do apartamento. Evitei dar tchau pra qualquer um, porque ninguém estava em clima de conversa. Alguém lembrou que a polícia chegaria em breve. Voltei pra casa agradecendo a sorte de ter dois braços, duas pernas e uma cabeça que funciona mais ou menos, mas que funciona.

Voltei de escadas, obviamente.

Une femme est une femme

Era uma vez uma moça que se apaixonou ao mesmo tempo por dois rapazes.

Ansiosa por todo o amor que há nessa vida, escreveu duas cartas, uma para cada um, marcando encontros em dois pontos distintos da cidade em que vivia. Ambos os encontros seriam no mesmo dia, mas com algumas horas de diferença.

Entretanto, logo depois que depositara os envelopes na urna dos correios, percebeu que havia cometido um erro terrível; a carta que começava com “Querido Paul…” estava no envelope endereçado para Pierre enquanto a carta que iniciava com “Querido Pierre…” estava dentro do envelope endereçado para Paul.

Desesperada, saiu correndo pelas ruas para encontrar-se com Pierre enquanto sua cabeça maquinava explicações sem fim. Encontrou-o. Depois de uma curta conversa que envolveu humilhação, palavras feias e ofensivas da parte dele, ela saiu de cabeça baixa e meio triste.

Seu coração estava meio partido.

Reuniu toda a fibra que encontrou em cada partícula do seu corpo, tomou o metrô e foi ao encontro de Paul, que a esperava, bem vestido, no café onde o encontro seria consumado. Com medo de ser alvo de nova humilhação, aproximou-se lentamente e sua cabeça nem era mais capaz de maquinar nada para tentar contornar a situação desagradável em que se metera. Deixou-se levar e sentou-se em sua mesa. Ele olhou nos olhos dela e disse que gente como ela não merecia o amor de alguém como ele. Depois, pediu educadamente para ela ir embora e não entrar em contato com ele nunca mais.

Com o coração em pedaços, ela foi embora e nunca mais entrou em contato com os tais rapazes.

Nenhum dos dois a amava de verdade. Havia algo de satisfatório no ar.

O universo numa casca de noz

Em determinado quando de certa floresta tropical, no miolo oco de uma árvore curiosamente sem folhas ou frutos, havia um esquilo que detestava dividir suas nozes.

Numa daquelas noites de verão chuvosas, um pequenino esquilinho, delirando de fome e frio, após fugir de sua toca sob acusações imperdoáveis de bastardo e assassino, vagou por dias até refugiar-se no mesmo miolo de árvore do esquilo resmungão.

“Que fazes aqui? Não sabes que é feio invadir assim, tão de repente, o coração dos outros?”

O esquilinho não entendeu nada, portanto ficou atônito. Que coração? O que, exatamente, era feio? Mais importante, por quê o outro tentava jogá-lo pra baixo ao lhe atrelar o peso de uma culpa que definitivamente não existia?

“Perdão, senhor, mas não compreendo exatamente o queres dizer. O fato é que a tormenta está forte e eu precisava de abrigo, por isso invadi esta árvore, que me parecia abandonada e inabitada. De qualquer forma, me pergunto o que posso fazer em troca de algumas nozes. Na verdade, eu poderia ouvir o que tens a dizer, pois creio que sou bom nisso.”

“Pois esta árvore é meu lar e um lar é onde o seu coração está. E aqui não há espaço pra você. Entretanto, posso te oferecer uma noz se você prometer ir embora logo que o sol nascer.”

O esquilinho assentiu e, aliviado, pela primeira vez reparou como o ambiente estava quente. Sua pelagem, antes encharcada pelas intempéries e pelos maus tratos, rapidamente se secava e voltava a brilhar timidamente.

Enquanto isso, o esquilo resmungão voltou com uma noz e ofereceu-a ao esquilinho. Este a devorou o quanto antes pôde e, mais calmo, deu uma segunda olhada no ambiente.

“Vives aqui há muito?”

“Mais do que gostaria, embora tenha me mudado há pouco.”

Não parecia verdade. O interior da árvore estava cheio de rachaduras aonde a seiva pegajosa ainda escorria livremente. A maioria das rachaduras pareciam cicatrizadas, mas outras definitivamente eram muito recentes. De repente, uma ideia louca tomou a mente do esquilinho e, antes que pudesse se conter, palavras foram lançadas como flechas.

“Onde estão os outros?”

“Ninguém entra aqui há mais tempo do que gostaria de admitir.”

“Então você é o responsável por ferir tão odiosamente assim o seu lar?”

O esquilo resmungão considerou que o esquilinho se mostrava cada vez mais atrevido ao vê-lo cada vez mais próximo da verdade, mas resolveu ver até onde ia aquilo.

“Sim, fui eu. Na verdade eu costumava pensar que foram os outros, mas descobri, no final, que o responsável sempre fui eu.”

“Mas por quê fizeste isso com o lugar onde você encerrou seu coração?”

Subitamente, o esquilo ficou louco. Seus dentinhos se arreganharam e suas patas começaram a tremer descontroladamente, seu coração estava na batida de uma banda de speed metal e rapidamente a razão desapareceu dos seus olhos, dando lugar a um brilho insano que fez o esquilinho recuar dois passos. Sua histeria o fez começar a berrar numa linguagem ofensiva e incompreensível pra uma mente sã. Era uma cena feia, mas que se tornou prontamente hedionda quando pegou a casca da noz, antes oferecida de bom grado, e a arremessou bem no meio do peito do esquilinho, que soltou uma exclamação de dor e surpresa.

Poxa vida, como aquilo havia doído.

Nesse momento, uma onda de sentimentos invadiu a cabeça do esquilinho; medo, raiva, angústia e incompreensão eram alguns deles, mas o mais forte de todos decididamente era a pena. Sem pensar, agarrou-se à uma das paredes com todas as suas forças e percebeu que seus dedinhos não precisavam de muita potência para abrir mais uma rachadura no miolo daquela árvore que, deduziu, certamente já havia visto cena parecida. 

E de repente viu-se calmo.

“Eu também tenho histórias tristes pra contar, sabia? Acontece que escolhi ser forte.”

Virou-se e foi embora, alheio à tormenta e a incerteza que o destino lhe reservara.

Eis que um veio de seiva apareceu onde o esquilinho havia segurado com seus dedinhos e, ao sentar-se mirando aquilo, novamente, o esquilo rancoroso sabia quem era o culpado.

“Por quê fui lhe oferecer aquela noz?”

Pediu ajuda aos céus e um raio caiu na árvore. Tudo queimou rapidamente. Praticamente não havia mais seiva.

Arise, my champion!

Sentou-se no seu trono, armou-se com todas as suas esferográficas e começou a tentar escrever a história mais escandalosa já escrita.

Para ele, não se tratava meramente de fazer arte; era tudo um mero escape. Era o mesmo sentimento que um viciado em heroína experimentava a cada vez que decidia tomar mais uma dose. Cada um com suas drogas, oras. A semelhança dele com todos os junkies deste planeta era que ambos preferiam o inferno de suas cabeças ao inferno das ruas. A rua corrompe e a sociedade drena.

Ou seria o contrário?

O que realmente importa é que o nosso herói tem uma poderosa arma empunhada enquanto mantém os olhos fixos no inimigo. Ele bem sabe que será uma batalha infinita na qual quando um morrer, o outro fatalmente deixará de existir. Entretanto, desistir não é uma opção. Só os fracos desistem, e ele desistiu de ser fraco.

A chegada

Ela está vindo.

Ciente e ignorante de todas as dificuldades, ela resolveu vir. Veio por causa de um amor. Veio por causa do sonho e da poesia. Mesmo que o amor não tenha sido o que ela esperava, mesmo que o sonho seja difícil de sonhar e a poesia de ser escrita, ela resolveu fazer seus bracinhos trabalharem contra seis mil e quinhentos quilômetros de maré contrária.

E ele? Quem é ele? Por quê essa belíssima menina de notável refinamento artístico e de sensibilidade sem limites prestou-se a amar um desajustado, um infeliz que viveu mergulhado nas próprias fantasias e afogado pelo vício de se gabar pelo que ainda não conquistou. Trata-se de um rapazote aspirante a homem.

Talvez o que um homem realmente precise pra ser homem é de uma grande mulher. Não pra andar atras de si, mas ao seu lado. Ele acredita nisso. Ela não tem muita certeza. Cansou-se de acreditar no inacreditável.

Ironicamente, ela acredita nele. E por um golpe de sorte, ele tem ela pra acreditar.